sábado, 27 de julho de 2013

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          Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins de Guimarães Peixoto Brêtas, nasceu em 20 de agosto de 1889, no estado de Goiás (Goiás Velho). Filha de Jacinta Luíza do Couto Brandão Peixoto e do Desembargador Francisco de Paula Lins dos Guimarães Peixoto, cursou apenas até a terceira série do primário e iniciou sua carreira literária aos 14 anos, publicando seu primeiro conto "Tragédia na Roça", em 1910, no "Anuário Histórico Geográfico e Descritivo do Estado de Goiás".
          Com um estilo pessoal, ela foi poetisa e uma grande contadora de histórias das coisas de sua terra. A espontaneidade, o cotidiano e as imagens que retratam o povo do seu Estado, costumes e sentimentos, são temas constantes de suas publicações. Assim, sua obra é considerada por vários autores um registro histórico-social do século 20, especialmente da região do serrado do Centro-Oeste brasileiro, onde nasceu e morreu.
         Em 1903 já escrevia poemas sobre seu cotidiano, tendo criado, juntamente com duas amigas, em 1908, o jornal de poemas femininos "A Rosa". Era chamada Aninha da Ponte da Lapa e trabalhou como doceira, na cozinha da Casa da Ponte, produzindo seus versos ao pé do fogão. Considerava os doces cristalizados de caju, abóbora, figo e laranja, que encantavam os vizinhos e amigos, obras melhores do que os poemas escritos em folhas de caderno.
          Virou Cora Coralina pois o pseudônimo era uma exigência para disfarçar a escritora, já que naquela época moça prendada não perdia tempo com manuscritos. O amor às letras foi o sustentáculo dessa mulher. Mesmo sofrendo preconceitos e dissabores ao longo da vida - que a atrasaram, mas não a impediram - ela decolou no mundo das palavras.
         Em 1911 conheceu o advogado Cantídio Tolentino Brêtas, com quem fugiu para morar em Jaboticabal, São Paulo, onde nasceram seus seis filhos. O fato de Cantídio ser homem separado, com filhos do casamento e inclusive uma filha, fruto de romance com uma índia, não desanimou Cora, que inclusive ajudou a criar a filha. Em 1922, foi convidada por Monteiro Lobato para integrar-se à Semana de Arte Moderna,.mas seu marido a proibiu de participar de tal evento.                        
          Saraus literários ou não, Cantídio não gostava de ver a capacidade da mulher. A Cora ousada, que deixou para trás preconceitos sociais, pouco ligava. Publicava artigos nos jornais de Jaboticabal, construía poesias e costurava contos. Flagrada na cidade pela Revolução Constitucionalista de 1932, alistou-se como enfermeira - a filha mais nova, Vicência, encontrou a ficha de inscrição após a sua morte, perdida entre centenas de textos inéditos.         Costurava bonés para soldados, uniformes e aventais para enfermeiras. 
          Com a morte do marido, Cora passou a se sustentar com a venda de livros, pela José Olympio Editora, a mesma editora que publicaria mais tarde o seu primeiro livro. Para ela, o valor de sua obra estava justamente na quietude vivida por muitos anos, nas dores e sentimentos de uma vida curtida pelo tempo. Voltou a morar em Goiás 45 anos depois, já produzindo sua obra definitiva. Seu reencontro com a cidade e as histórias de sua formação alavancaram seu espírito criativo. Tradições e festas religiosas, comidas típicas da região, famílias e seus "causos", tudo motivava a escritora a fazer uma ponte entre o passado e o presente da cidade, numa tentativa de registrar sua história e entender as mudanças. Com a mesma rica simplicidade de seus personagens, Cora fazia doces cristalizados para vender.
          Aos 70 anos decidiu aprender datilografia para preparar suas poesias e enviá-las aos editores e, somente aos 76, conseguiu realizar o sonho de publicar seu primeiro livro, "Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais". Sua apresentação ao mundo literário nacional aconteceu quase aos 90 anos, pelas mãos de Carlos Drummond de Andrade que durante muitos anos homenageou Cora em diversas cartas e publicações.

          Carta de Drummond a Cora Coralina 
          Rio de Janeiro, 7 de outubro de 1983. 
         Minha querida amiga Cora Coralina: Seu "Vintém de Cobre" é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje não nos pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia ( ...). Não lhe escrevi antes, agradecendo a dádiva, porque andei malacafento e me submeti a uma cirurgia. Mas agora, já recuperado, estou em condições de dizer, com alegria justa: Obrigado , minha amiga! Obrigado, também, pelas lindas, tocantes palavras que escreveu para mim e que guardarei na memória do coração.

          O beijo e o carinho do seu 
                              Drummond. 
        Desde então, sua obra, impregnada por uma profunda crença nos valores humanos e um real comprometimento com os mesmos, vem conquistando crítica e público.
          Entre as publicações de Cora Coralina estão: "Meu Livro de Cordel", "Vintém de Cobre", "Estórias da Casa Velha da Ponte", "O Tesouro da Casa Velha", "Os Meninos Verdes" e "A Moeda de Ouro que um Pato Engoliu", pela qual recebeu títulos e prêmios. Em 1983, lançou "Vintém de Cobre-Meias Confissões de Aninha", recebendo em seguida o Troféu Juca Pato da União Brasileira de Escritores, que a elegeu a Intelectual do Ano. 
        Ela era simples mas foi doutora "feita pela vida, pelo estudo incessante de tudo quanto aconteceu em seu derredor", palavras da reitora de Universidade Federal de Goiás. E Cora Coralina recebeu realmente o título de Doutora Honoris Causa daquela Universidade. Em 1984, foi reconhecida Símbolo Brasileiro do Ano Internacional da Mulher Trabalhadora pela FAO (Organização das Nações Unidas para agricultura e alimentação). Também entrou para a Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás.
          Cora Coralina faleceu em Goiânia a 10 de abril de 1985. A casa em que morava, construída por volta de 1770, foi transformada em museu depois da sua morte. Em 2001, o Rio Vermelho, que corta a cidade histórica, transbordou depois de uma forte chuva, destruindo toda a arquitetura histórica da cidade. Com a inundação atingindo a casa de Cora, o acervo do museu composto de cadernos com poemas e contos, ainda não publicados, cartas, móveis e objetos pessoais da escritora, foram seriamente danificados. Depois de pouco mais de um ano, novos investimentos garantiram a recuperação de pontos turísticos, incluindo a casa de Cora Coralina.

"Poeminha Amoroso" 

Este é um poema de amor 
tão meigo, tão terno, tão teu... 
É uma oferenda aos teus momentos 
de luta e de brisa e de céu... 
E eu, 
quero te servir a poesia 
numa concha azul do mar 
ou numa cesta de flores do campo. 
Talvez tu possas entender o meu amor. 
Mas se isso não acontecer, 
não importa. 
Já está declarado e estampado 
nas linhas e entrelinhas 
deste pequeno poema, 
o verso; 
o tão famoso e inesperado verso que 
te deixará pasmo, surpreso, perplexo... 
eu te amo, perdoa-me, eu te amo... 

Cora Coralina